#BrequeDosApps: entregadores de aplicativos fazem paralisação nacional nesta quarta-feira (01)

A greve não tem uma liderança organizando os atos e os “motocas”, como gostam de ser chamados, dizem sequer saber a origem da revolta. 

 

 

A previsão é que a manifestação ocorra em vários estados do Brasil, inclusive com atos físicos em alguns e que chegue até a outros países. Além da paralisação, entregadores pedem para que usuários de serviços de delivery não peçam nada ao longo da quarta-feira, em apoio ao movimento. A paralisação vem sendo organizado durante todo o mês de junho, por meio de grupos de WhatsApp, sem uma liderança centralizada. Cada cidade conta com organizadores mais atuantes na paralisação, que vêm combinando com os respectivos participantes como se dará a paralisação. A partir da hashtag #BrequeDosApps, a greve vem ganhando não apenas as redes sociais, mas permitindo que entregadores de todo país se comuniquem e narrem seus sufocos nas exaustivas jornadas de entregas de refeições, compras e produtos, amplificadas pela pandemia da COVID-19.

 

As reivindicações dos entregadores dos apps não são exatamente uma novidade e elas já vêm de longe. Entre elas estão:

  • Aumento do valor mínimo da corrida 

A reivindicação dos entregadores é que os apps aumentem o valor mínimo das entregas, para compensar o deslocamento tanto dos proprietários de motos, quanto de bicicletas.

  • Seguro de roubo e acidente

Os entregadores pedem seguro contra roubo de seus instrumentos de trabalho, bem como um seguro que forneça uma compensação financeira em caso de acidente de trabalho.

  • Aumento do valor por km percorrido

A pandemia da Covid-19 fez com que a demanda dos serviços de entrega disparasse, o que inclui, claro, o lucro das empresas donas dos aplicativos. No entanto, os entregadores afirmam que nenhum tipo de reajuste foi repassado para eles, apesar do aumento no número de pedidos.

  • Auxílio-pandemia

Os entregadores pedem não apenas a distribuição de EPIs, como máscaras e álcool gel, como também licença remunerada caso eles sejam contaminados pela Covid-19.

  • Fim do sistema de pontuação (no caso do Rappi)

Esse talvez seja um dos pontos mais polêmicos quando o assunto é a greve dos entregadores, principalmente porque envolve um dos aplicativos mais populares e usados do mercado: o Rappi.

Paralisação

A precariedade das condições de trabalho dos entregadores vem chamando tanto a atenção, que vai virar até mesmo um documentário. Trata-se do Pandelivery – Quantas vidas vale o frete grátis, que mostrará a rotina e, claro, os sufocos pelos quais passam os entregadores de aplicativos em São Paulo – maior mercados para essas empresas.

O documentário será produzido pela Solalma Production Co., sendo dirigido por Guimel Salgado e Antonio Matos e está programado para ser lançado no final de julho deste ano. Em entrevista, Salgado afirma:

“Quando o coronavírus chegou, decidimos abrir mão da ficção e ir a campo registrar a realidade, ela já era o suficiente”, explica. “O que pensa um entregador voltando pra casa? Ele bateu sua meta? Como deve ser levar algo de que nunca desfrutará para um lugar onde, provavelmente, nunca terá condições de morar? Essas questões sempre me assombraram, e mostrar essa realidade seria uma crítica a meu próprio uso desses apps.”

O iFood foi o único a se manifestar. Confira:

Antes de mais nada, o iFood apoia a liberdade de expressão em todos as suas formas. Em nenhuma hipótese entregadores são desativados por participar de movimentos. Essa medida é tomada somente quando há um descumprimento dos Termos & Condições para utilização da plataforma e é válida tanto para entregadores, como para consumidores e restaurantes.

É importante frisar que desativar indevidamente um entregador é ruim para o iFood. Os principais casos de desativação acontecem quando a empresa recebe denúncias e tem evidências do descumprimento dos termos e condições que pode incluir, por exemplo, extravio de pedidos, fraudes de pagamento ou, ainda, cessão da conta para terceiros.

Em casos identificados, o entregador recebe uma mensagem via aplicativo e é direcionado para um chat específico para entender o motivo da desativação e pedir análise do caso. A empresa também não adota nenhuma medida que possa prejudicar aqueles que rejeitam pedidos. Ao rejeitar muitos pedidos, o sistema entende que o entregador não está disponível naquele momento e pausa o aplicativo, voltando a enviar pedidos, em média, 15  minutos depois.

A empresa esclarece que o valor médio das rotas  é de R$ 8,46. Esse valor é calculado usando fatores como a distância percorrida entre o restaurante e o cliente, uma taxa pela coleta do pedido no restaurante e uma taxa pela entrega ao cliente, além de variações referentes a cidade, dia da semana e veículo utilizado para a entrega. Todos os entregadores ficam sabendo do valor da rota antes de aceitar ou declinar a entrega. Todas as rotas tem um valor mínimo de R$5,00 por pedido, mesmo que seja para curta distância.

Em maio, o valor médio por hora dos entregadores foi de R$ 21,80. Para fins de comparação apenas, esse valor é 4,6 vezes maior do que o valor por hora tendo como base o salário mínimo vigente no país. Esses entregadores foram responsáveis por 74% dos pedidos. Pelos dados do iFood, os ganhos médios mensais do grupo que têm a atividade de entregas como fonte principal de renda (37% do total) aumentaram 70% em maio quando comparados a fevereiro.

Quanto a seguros, desde o fim de 2019, o iFood oferece a todos os entregadores cadastrados em sua plataforma o Seguro de Acidente Pessoal. A iniciativa é operacionalizada pela MetLife e pela MDS. Com ela, estão cobertas despesas médicas e odontológicas, bem como indenização em caso de invalidez temporária ou permanente ou óbito decorrente do acidente. O seguro não representa nenhum tipo de custo para os parceiros. O benefício é válido durante o período no qual eles estão logados na plataforma da empresa e também no “retorno para casa” – válido por uma hora e até 30 km do local da última entrega realizada de moto, ou por duas horas e até 30 Km do local da última entrega para quem realiza entregas com bicicletas, patinetes ou a pé. O iFood possui ainda parceria com a Prefeitura Municipal de São Paulo para promover boas práticas de conduta no trânsito.

Sobre medidas de enfrentamento do Covid-19, desde o início da pandemia, em março, foram implementadas medidas protetivas que incluem fundos de auxílio financeiro para quem apresentar sintomas e para aqueles que fazem parte dos grupos de risco. Também foi disponibilizado gratuitamente até o final do ano um plano de benefícios em serviço de saúde. Até o momento, foram destinados mais de R$ 25 milhões a essas iniciativas.

Em abril, a empresa iniciou a distribuição de EPIs (álcool em gel e máscaras reutilizáveis) em kits com duração de pelo menos um mês. O iFood desenvolveu uma logística específica para retirada desses materiais, para evitar aglomerações. O entregador recebe um convite no aplicativo, como se fosse um pedido, e o deslocamento é pago até o ponto de retirada.

A empresa já comunicou todos os entregadores ativos sobre a retirada e está focada grande parte dos seus esforços para atingir toda a base de entregadores nas cidades em que operamos. Também continuamos avaliando alternativas para atingir mais pessoas de forma segura e controlada, considerando a distribuição mensal para que todos tenham materiais sempre

De acordo com pesquisa do Instituto Locomotiva realizada em abril, as medidas adotadas pelo iFood tiveram nota média de 8,9, melhor avaliação entre as ações realizadas por empresas do setor que operam no Brasil. Oito em cada dez entregadores avaliam muito positivamente as iniciativas. A pesquisa mostra ainda que, mesmo após o fim da crise, 92% dos entregadores pretendem continuar na atividade de entregas por aplicativo.

Para os especialistas, as exigências são justas, mas são complexas e criam um paradoxo: ao mesmo tempo em que os entregadores se dispõem a trabalhar como autônomos, exigem alguns direitos das empresas. “Existe a necessidade de compreender o que é o setor informal da economia de ambos os lados. O trabalhador precisa entender o que é a economia de bico e ceder em alguns aspectos, mas a empresa também tem que ceder”, aponta Inhasz.

Por Luciana Ramalho

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